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VITÓRIA DANIELA BOUSSO CRÍTICA DE ARTES VISUAIS E CURADORA
Jair de Souza é um criador multimídia. Construiu a sua obra a partir do design e, hoje, quando já reconhecemos a crescente convergência entre as comunicações e as artes, podemos situar este artista em um campo de criação híbrido, que opera nas interfaces entre as artes visuais e a comunicação. Daí o seu constante interesse no outro, isto é, no público receptor da obra. Tanto em suas criações em design gráfico quanto nos ambientes e instalações que tem desenvolvido transparecem a constante inquietação e o desejo de provocar ou conclamar o espectador a fazer parte da obra.
O “Auto-retrato falado” de Jair de Souza coloca em pauta as questões referentes à diferença entre o mítico e o ilusório, o real e o imaginário, ao articular a percepção que cada um tem de si próprio. Esta obra abrange vários campos que envolvem o conhecimento humano: o social, o antropológico, o psicanalítico e o artístico.
O projeto construiu um banco de imagens formado a partir de 1.000 fotografias de cidadãos cariocas, de todos os biótipos humanos, de várias idades, tiradas em vários pontos do Rio de Janeiro. Essas 1.000 fotografias – organizadas a partir de um programa que realizou a combinação numérica dos seus conjuntos de olhos, sobrancelhas, narizes, bocas, faces, cabelos e marcas particulares – tiveram estes configuradores de identidade multiplicados. Ao todo, geraram 8.000 elementos faciais disponíveis para construir cada auto-retrato falado do visitante da instalação.
Este banco de imagens traduz o testemunho vivo captado pela câmara e pelo olho humano e representa uma sociedade multicultural e eclética. Ele escancara a nossa condição de mestiçagem em pleno processo de globalização e a sua conseqüente crise de valores em relação à gênese e à diferença social. Nesse arquivo vivo reside a constatação da nossa tragédia e glória, refletida por parâmetros coletivos do nosso tecido étnico e social.
A conexão entre arte e ciência é feita a partir da utilização de um software policial que a princípio foi concebido para auxiliar a conter a violência urbana: o Photocomposer Plus, criado e desenvolvido pelo professor Isnard Martins, que permite a automatização da técnica do retrato falado.Transportada para o contexto da arte, esta ferramenta torna-se interface entre obra e público, promovendo a interatividade. Uma vez dentro da instalação, o visitante passa a se relacionar com o programa descrevendo-se e realizando a construção da sua imagem a partir do retrato falado.
A imagem do espectador certamente sairá bem diferente daquela proveniente de um instantâneo fotográfico ou de um flagrante. Aí entra em jogo a diferença entre o real e o ilusório, entre aquilo que somos e aquilo que supomos ser; o imaginário é colocado a serviço das aparências. A construção da imagem do participante estará exposta on-line e, portanto, quem está de fora da cabine da instalação pode ver o que se passa do lado de dentro da obra: um reality show em tempo real.
Se o papel das máscaras e das “personas” é o de promover a metamorfose, a arte contemporânea interativa nos transporta para um mundo onírico e pode ser entendida como uma via de mutação ou transformação pelo viés da participação, como sugeria Oiticica. Ao adentrar esta obra, escolha, entre os sujeitos que aparecerão, qual você prefere encarnar. Este é mais do que um jogo de sedução, pois pode revelar uma de suas facetas que você ainda desconhece. Não sei bem por que, ao tomar contato com este ambiente imersivo lembrei daquela célebre frase que lemos e ouvimos durante toda a nossa infância: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?”. |
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